Desacatamentoze

I
Não diga “por favor” que não te entendo!
É que as vezes surdo embora estou
Não te respondo com simples palavras
Ando procurando em dicionários
Outras palavras que te façam entender
Vasculho página por página, número por número…
E foi tudo em vão!

II
Não diga “por favor” que não te entendo!
Leio nos jornais várias notícias
Com esperança de encontrar teu nome.
Leio pois releio até que meus olhos se cansam
E tento com lembrança me animar
Com muros e consolações que já passaram…
E foi tudo em vão!

III
Não diga “por favor” que não te entendo!
Ouço nos passos transeuntes o nosso passeio
Como se fora ontem, éh! O ontem!
Rastros que se perdem com a multidão
E vão riscando todos os passos
Como farejando a tua procura,
E foi tudo em vão!

IV
Não diga “por favor” que não te entendo!
Hoje vai passando mais rapidamente
Parece que aquele pedestal está se correndo
Esfarelando o tempo em busca de refúgio,
Torno a repetir que meu vulto doentio
É sósia do passado, somente isso…
E foi tudo em vão!

V
Não diga “por favor” que não te entendo!
Que através de um sonho apenas
Não tive a chance de despertar-me inteiro
Ou por outro lado num pesadelo
Quis cegar meu quarto à velas
P’ra não te despertar…
E foi tudo em vão!

VI
Não diga “por favor” que não te entendo!
Fui fazer um corte em tua foto
Com uma moeda sem cara e sem coroa,
Mas foi a toa que eu quis cortar
Fazer retalhos com tua imagem
E montar um quebra-cabeça…
E foi tudo em vão!

VII
Não diga “por favor” que não te entendo!
Olhei em vão de cercas o teu vulto
Que parecia descansar em mastros
Em meio de tudo um tumulto,
Lavam-te de cores apenas cores…
P’ra que haja mais pureza…
E foi tudo em vão!

VIII
Não diga “por favor” que não te entendo!
Sempre perguntando: -“O quê?”
Precisando de algumas palavras simples
Que num retoque sem máscaras
Pudesse retocar o fundo de minh’alma…
Uma única saída que se possa ter…
E foi tudo em vão!

IX
Não diga “por favor” que não te entendo!
Remendo os trapos de cobertas
Que te cobriram toda naquele frio passado…
O sol ia sumindo no retrato
Lareiras chamuscadas de carvão,
A porta com a fechadura enferrujada, já sem chaves…
E foi tudo em vão!

X
Não diga “por favor” que não te entendo!
Grito, mas meu grito é todo surdo…
Olho, mas meus olhos olham no vazio…
Se calo, meu peito reclama
Se sonho, é um todo mesquinho,
Num tolo completo…
E foi tudo em vão!

XI
Não diga “por favor” que não te entendo!
O ouro nos teus olhos cegos
Não tinha valor sem teu brilho ofuscante!
A luz sempre está iluminando-te…
Vão brotando em mim, míseras lágrimas
Que nem um choro de abandono…
E foi tudo em vão!

XII
Não diga “por favor” que não te entendo!
“Cordas de Aço” vão violentando os dedos
Trazendo aos poetas mais escrita
São somas de cada letra,
São letras para uma história…
Mas falta ler para se entender…
E continua tudo em vão?

(Ago: 05, 1981)

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