Violeta de Outono (Cartas Chilenas)

Não conseguiria cingir palavras
Em tom de alegria,
Porque a minha saudade é triste!

Relembro o dedilhar de lamentações
de um ‘não’ revoltado,
peças ruas as bocas famintas,
os pés explorados,
as mãos mutiladas,
os olhos ardentes,
os sonhos abortados!

Tudo isso por um
‘Pelo amor de Deus!”

meu quarto, as paredes
choravam de melancolia…
choraram prantos,
tantos quantos dos operários…

trouxeram certa vez,
uma correspondência
deslacrada
com digitais de milícias
ao meu quarto!

Era um dia nublado onde relampejava
Sobre as pradarias
O crepúsculo de um dia
Que desvirginava pelas galerias
Dos déspotas
O momento livre!

Minhas mãos tremulavam,
Segurando a correspondência…
Sem remetente,
Sem data,
Num momento saudoso!

Quando estava no colégio
E via ao longe teus símbolos,
Nossa querida marca,
Sendo içada aos sete ventos latinos,
No gorjeio de cantos:

Democracia! Democracia! Si! Democracia!

O que restava da civilização, choramingava
Pelas sarjetas carimbadas
Pelos tributos feudais,
Pelos abusos dos senhores da lei,
Pelos togados enteados na nação!
Oriundos de genitores de aluguéis…
Cortejavam no vício do câncer feudal
O ser ou não ser da liberdade!

O século virou, e com ele as décadas vieram,
O cenário mudou,
Os personagens mantêm-se no podium!
Patronatus Profanus,
Invólucros paternuum,
Célebros elitistas,
Méritos escárnios,
Prostibulus clerus,
Meros fundadores da poção canônica
De serem puros filhos….

Labuta! Labuta!

Não me satisfaço em ler esta correspondência,
A primeira depois de ouvir
Que as flores podadas,
Que as cores foram furtadas,
Que as dores foram atadas,
Mas Violeta canta! Mesmo assim, canta!

Canta!
Estronda na platéia operária
As vozes roucas
E soturnas de homens, mulheres, crianças,
E logo surgem das mãos de um oficial
Um cale-a-boca chileno,
Emudecendo assim o grito de basta!

Não findou da Violeta felina sei dedilhar,
Na guitarra latina, o eco de libertas!

Do meu quarto salpico
Pelas janelas as correspondência,
Sem remente,
Sem data,
De alguém que algum dia
Cortejava em temor servil:
Gracias a la Vida!”

(Set: 04, 2001)

Violeta Parra:

Mercedes Sosa:

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